O SABOR DA SAUDADE

 


Já dizia o mestre Machado, em brilhante metáfora: uma das desvantagens da longevidade é a orfandade em que ficamos dos entes queridos, que vão, em número cada vez maior, estudar a geologia dos campos santos.

Aos 78 anos, contabilizo um número razoável de perdas: avós, pais, irmãos, muitos parentes, amigos e amigas. Não são poucos os que me antecederam na viagem e espero rever; mas, para ser franco, não tenho pressa do reencontro.

Até porque a saudade tem uma característica única. Comparo-a ao morcego que, segundo o velho ditado, “morde e assopra”, diminuindo a dor da mordida. A ausência dói, sim; mas as boas lembranças nos reconfortam, trazendo de volta a pessoa amada. 

Percebi isto, mais uma vez, no domingo passado, o chamado Dia de Finados. E, mais uma vez, percebi a velocidade com que as coisas mudam: quando eu era jovem, o Dia de Finados era uma ocasião de silêncio e contrição absolutos.

Nem o rádio podíamos ligar, lá em casa; e creio que, também, nas casas da maioria das famílias daquela época: qualquer manifestação de alegria, inclusive a música, era considerada desrespeito aos falecidos, por diminuir a tristeza.

Neste particular, nem preciso dizer, considero a atitude de hoje muito mais sensata. Parece-me lógico que, antes de qualquer perda, precisa existir um ganho; é muito mais inteligente agradecer pelo ganho, do que lamentar a perda.

Porque, vejam bem: não podemos perder senão algo que temos. E, antes de lamentar a partida de alguém querido, devemos agradecer pelo tempo que nos foi concedido ao seu lado; pelos bons momentos de que desfrutamos juntos.

Indo um pouco mais além, e considerando a morte no seu sentido mais duro e cruel, o de desaparecer, eu diria que ela não existe. Porque ninguém desaparece, enquanto é lembrado; nem deixa de existir, enquanto a sua lembrança vive.

Esta é a verdade que percebo: cada um dos meus entes queridos que se foi, deixou uma marca em mim. E não uma marca que dói, como aquela feita com fogo, mas uma marca que acaricia a minha alma, como o roçar de uma pluma.

Nenhum deles, portanto, realmente se foi. Podem não estar à minha vista; não posso tocá-los, ou eles a mim; não posso sentir o seu cheiro. Mas respiro o perfume de suas lembranças e sinto a sua presença no meu coração.

Às vezes ouço as suas vozes no vento, como se a meu lado estivessem; ou os encontro nas músicas que ouvimos juntos, nas palavras com as quais conversamos, nos lugares onde estivemos e deixamos no tempo nossas marcas.

Por isto, quero erguer a eles um brinde e oferecer-lhes uma rosa; não no Dia de Finados, mas em um dia comum, como hoje. Porque estão vivos em mim, todos os dias; e vivos estarão, nas minhas lembranças, enquanto eu andar sobre a Terra.

Porque saudade não é ausência, mas sensação de presença.  Saudade é o amor que desafia as leis do espaço e do tempo; que permite a convivência em diferentes dimensões, como zombando da nossa submissão ao mundo material.

Saudade é amor. E o amor não morre jamais! 

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