EPIFANIA
Ontem, foi um dia meio puxado.
Acho que já
falei aqui: Ilhéus não é bem uma metrópole. Moro na praia, a uma distância
razoável do centro, e as obras de duplicação da rodovia estão complicando muito o trânsito na região.
Então, quando
vamos ao centro, costumamos ter um bocado de coisas pra fazer; saímos pela
manhã, almoçamos por lá e, quando voltamos, já é de tardinha. Ontem, foi uma dessas ocasiões.
Chegamos em casa quase 18 horas, bem cansados. Não gosto de dirigir à noite: a vista já é
velha e a iluminação pública não é boa; os faróis dos outros carros me ofuscam
e é mais difícil enxergar.
Evito, sempre,
dirigir à noite. Mas, ontem, precisei sair para fazer um favor a um amigo; e
confesso que não saí de bom humor. Sabe, quando você se sente forçado a algo
que não quer fazer?
Fico bravo,
quando faço algo contra a vontade; tenho problemas com autoridade. Então, saí
de casa bem contrariado; Danado da vida mesmo, pra dizer a verdade. Mas, de repente, algo mudou em mim.
Comecei a
pensar: estou com quase 80 anos e não sinto, sequer, uma dor de cabeça. Tenho
uma esposa que acho linda e me faz viver feliz, a maior parte do tempo; sei que
a amo e que ela me ama.
Tenho quatro
filhos, todos já criados e encaminhados na vida; não me trazem problemas, muito
pelo contrário. Temos os pequenos percalços do caminho, mas nada que, realmente, me venha a preocupar.
Estou muito
longe de ser rico; mas, pelo menos no momento, não tenho problemas financeiros.
Já os tive, e graves, mas não mais. Sou aposentado e continuo a trabalhar; está
dando para viver.
Então, tive uma
epifania: com tantas e tão grandes dádivas que recebo todos os dias, por que me
aborrecer tanto, por algo tão pequeno? Faria algum sentido renunciar à
felicidade, sem qualquer razão?
Porque a
felicidade é uma questão de escolha: você escolhe ser feliz ou não, quaisquer
que sejam as circunstâncias; você não pode influir nos fatores externos, mas
resolve como vai-se sentir.
Esta é uma
escolha que fazemos em todos os momentos. E a felicidade é leve: atrai coisas boas; enquanto a contrariedade é uma emoção densa e cria uma nuvem escura à
volta de quem a sente.
É bem melhor
caminhar entre nuvens, sentindo o aroma de flores, do que sobre o lodo denso do
pântano, com seu odor de podridão. Escolhamos a leveza e a vida se torna
melhor: mais leve e feliz.
Liguei a central
de mídia e comecei a ouvir minha playlist; baixei os vidros do carro e deixei
que o ar fresco do começo de noite agitasse meus cabelos e acariciasse meu rosto, agora sorridente.
Porque lembrei que sou feliz.



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