EU E O MEU DEUS
Eu já fui mais religioso.
Para dizer a
verdade, sempre estive dividido entre misticismo e ceticismo. Uma parte de mim
acredita em divindades e magia, enquanto a outra insiste em seguir apenas o
pensamento racional.
O místico talvez venha da criação: a família misturava catolicismo e kardecismo. Minha
mãe fazia promessas a santos, mas era médium; acordava e escrevia longos textos,
no meio da noite.
Tínhamos
sessões espíritas em casa e meus pais eram muito amigos de Divaldo Franco. Na adolescência,
frequentei aulas de evangelização aos domingos e de catecismo na escola primária.
Aos 90 anos,
acamada por uma prótese no fêmur, minha mãe ansiava por fazer "a passagem",
para encontrar os entes queridos que se foram e contar histórias para crianças, no "outro lado".
Dizem que eu
também sou médium. E talvez seja: nunca entendi muito bem porque escrevo tão
diferente, nos textos d'O Árabe. É como se outra pessoa os ditasse, e eu transcrevesse.
Já frequentei e
fiz palestras em centros espíritas. Também já fui a centros umbandistas; tive, inclusive, a "cabeça feita". Já li o futuro nas cartas; com acertos, diga-se de
passagem.
Já fundei e
coordenei um centro espiritualista, onde nunca cobramos nada a ninguém; nem uma
ajuda para a manutenção. E tenho orgulho do bem que fizemos a muitas pessoas.
Durante esse tempo, ouvi
contar vários episódios que "provam" a sobrevivência da alma. E, confesso, vivi
outros tantos; inclusive, tenho dois filhos que foram curados por operações espirituais.
Já recebi
pessoas que nunca havia visto e a quem "recordei" acontecimentos de suas vidas, no passado. Já "vi" cerveja transformada em água e já "bebi" 24 garrafas de
cerveja, sem consequências.
Enfim, eu
deveria acreditar sem restrições. Mas, aí, entra em cena o eu que lê e
raciocina; que já pesquisou diversas religiões e o raciocínio de filósofos. E
esse eu procura por provas e certezas.
Essas, admito,
não existem. Afinal, ninguém foi comprovadamente "lá" e voltou para contar como
é; acreditar ou não, é uma decisão de cada um. E, na verdade, não me preocupo muito
com isso.
Até porque, em
breve, devo descobrir como a coisa realmente funciona. E não há nada que eu
possa fazer a respeito; o negócio é seguir a onda e ver onde vai dar esse
caminho de todos nós.
Acredito em
Deus; isso me basta. Talvez eu imagine um Deus diferente daquele em quem a
maioria acredita. Também não sou de fazer pedidos; até porque creio que Ele sabe tudo de
mim e de tudo.
Ou não seria o
meu Deus.

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