EU E O REVEILLON

 


Chegamos ao meio de mais um ano. E me pego pensando que, quanto mais velho fico, com menos entusiasmo festejo o réveillon.

Acho um negócio meio complicado desejar "Feliz Ano Novo", quando já estamos nesta fase, em que cada ano pode ser o último; pode, mesmo, não chegar ao fim. Vou fazendo os votos, mas... Desconfiado.

E não é porque tenha medo de morrer. Nesta idade, procuro aproveitar ao máximo cada dia; mas, como dizia meu avô, já estou com as malas prontas: quando o dia chegar, chegou. Ninguém fica, né?

Não seria sensato viver com medo de algo que certamente vai acontecer. Viver com medo de morrer é como amargurar os dias de férias, pensando no dia em que vão acabar. Vocês não acham?

O que me assusta, reconheço, é a possibilidade de perder entes queridos. De tempos em tempos, recebo a notícia de que mais um amigo se foi; aí me bate uma tristeza, proporcional ao nosso grau de amizade.

Cabe, aqui, recordar uma citação que sempre me pareceu a melhor de Machado de Assis: "Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos Campos-Santos.". Fantástica!

Com a sua costumeira ironia, Machado sintetiza muito bem a situação confusa dos idosos. Por um lado, a tristeza de perder um amigo; por outro, uma alegria envergonhada de pensar: "Menos mal, que não fui eu!".

Podemos até dizer que não, mas estou certo de que isso acontece com todo mundo que já passou de certa idade. Como diz Gonzaguinha: "Ninguém quer a morte; só saúde e sorte."; esta é uma verdade inegável.

Entretanto, existem pessoas que nos são tão caras que a gente prefere morrer a perdê-las. Não sei se é assim com vocês, mas isto acontece comigo; algumas ausências seriam, acredito, simplesmente insuportáveis.

É disto que tenho medo. Para diminuir o perigo, venho procurando cultivar o desapego; talvez os meus poucos (e bem selecionados!) leitores tenham notado que repito o mantra: "Nada, nem ninguém nos pertence.".

Acontece que, para mim, isso funciona muito bem com as coisas materiais: há muitas de que gosto (roupas, lugares, aparelhos, etc.), mas nenhuma a que eu seja apegado; que me fizesse muita falta, se acaso se fosse.

Com pessoas (e sentimentos), porém, é muito diferente. Não sei se eu conseguiria viver, se algumas (poucas, é bem verdade) me faltassem. E, confesso, espero nunca ter oportunidade de tirar essa dúvida.

Debato-me entre a fé e a dúvida, o misticismo e o ceticismo; é uma característica minha. Mas a lógica me diz que há apenas duas hipóteses: ou a vida continua depois da morte, ou tudo se acaba para nós, quando ela chega.

Posso me virar bem, com qualquer das duas. Se tudo acaba, não haverá alegria nem sofrimento; tudo acabou. Se continua, terei que passar pelo que vier; não haverá outro jeito, nem outro caminho, além de seguir em frente.

Portanto, a minha morte não me preocupa; é aproveitar, enquanto estou aqui, porque ninguém sabe o que virá depois. Mas já passei por perdas bem dolorosas e não sei como faria, se a vida me forçasse a aguentar mais alguma.

Entenderam por que já não tenho esse tesão no réveillon?

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Comentários

  1. Sabes que nunca me empolgo com o tal do ano novo e na hora da virada sempre quase me dá arrepios.Abraço e beijo toda família, mas sempre com uma sensação da incerteza com o virá.Afinal o ano quando passa, já passou e npos nele, todos juntos. Mas no próximo, a pulguinha na orelha... abração, ótimo fds! chica

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    1. É mais ou menos por aí, Chica; é desse jeito que penso. Mas vamos em frente, aproveitando cada ano que vier. ;) Meu abraço, obrigado; bom fim de semana!

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  2. Sensacional o texto! Só você para misturar Machado de Assis com Gonzaguinha e me fazer rir e chorar na mesma frase. Mas ó, já que você citou o Machado e a "geologia dos Campos-Santos", faça o favor de continuar por aqui atualizando o blog por muitas décadas. Não estou pronto para virar geólogo ainda e nem quero que você falte no meu Réveillon (mesmo que seja sem tesão)!

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    1. Sou sincero, amigo, você sabe: prefiro que não sejam tantos. Mas prometo approveitar cada um, o mais que puder; obrigado pelos votos e vamos aos novos anos... ainda que o tesão já não seja o mesmo! :)

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  3. Olá, Flávio, concordo com você e também acho que o mais importante é procurar aproveitar ao máximo cada dia... abraços!

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    1. Com certeza, Ana Lúcia! Afinal, são os dias que formam os anos. Meu abraço, obrigado; bom fim de semana!

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  4. Nem imaginas como me identifico com as tuas palavras.

    No entanto, posso infelizmente por experiência própria afirmar que sobrevivemos a dores muito intensas : meu Pai morreu em 21 de Abril de 1999 e eu ainda cá estou.

    Amigo, estreito abraço, muito tempo ainda de vida com saúde e alegria para ti!

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    1. Acredita, São: imagino, sim! Mas somos resilientes: já se foram meu pai, dois irrmãos e minha mãe (esta, em 2020), além de muitos amigos queridos. Mas precisamos seguuir em frente, não é? Obrigado, amiga, e o mesmo te desejo! Meu abraço, bom fim de semana.

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  5. Bom dia Amigo e bom Flávio,
    Talvez, porque nunca fui de festas, no Réveillon, tudo muito sereno em casa, quase que é uma noite como outra qualquer. Um jantar simples com as tradicionais 12 passas e desejos, (que me esqueço quase sempre) um Porto com o marido e telefonemas aos filhos e familiares quando se inicia o novo ano . Depois vamos à janela ver o fogo de artificio que deitam nuns prédios mais altos, aqui próximo.
    Tudo simples, amigo... Tive uma fase, muito mais nova (também estou na sua década;), em que pensava muito na morte e tinha medo. Com o tempo e com as perdas queridas que já tive, tenho vindo a aceitar de forma natural, com esperança na vida eterna e, penso sempre, nos semblantes serenos dos que partiram.
    Tenho pensado que não vale a pena nos torturarmos a pensar no assunto, porque quando chegar a hora ela virá!
    Beijinhos e continuação de boa semana.
    Emília

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  6. Boa tarde meu querido amigo Flávio. Confesso que a morte, chegará um dia para todas as pessoas. Confesso que não tenho, nenhum medo de morrer um dia. Uma excelente tarde de terça-feira e um grande abraço do seu amigo carioca.

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    1. Vai demorar muito, ainda, Luiz; você é novo, amigo, e terá muito anos pela frente, com fé em Deus! Obrigado, meu abraço; bom fim de semana.

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  7. Sobre o Réveillon, passei orando do dia 31 de dezembro, até o dia 1 de janeiro.

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    1. Uma boa forma de passá-lo, com certeza! Encarando o que virá, com fé e esperança! Grande abraço, amigo.

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  8. Olá, Flávio
    Realmente o tempo está voando! Deus é a nossa fonte de alegria e paz e Ele prometeu vida eterna através da Salvação em Jesus. Romanos 6:8 diz: "Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos." Esta esperança nos anima a cada manhã. Um forte abraço.

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    1. Quanto mais velho se fica, Lucinalva, mais rápido o tempo se passa; acredite! Realmente, a Fé é o nosso maior conforto. Bom fim de semana, amiga; meu abraço, obrigado.

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  9. Wonderful post, Flavio! I honestly think that New Year's Eve is overrated.

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  10. Já escrevi um texto sobre isso, Linda: acho que procuramos envolver o novo ano em esperança, antes que ele nasça e se torne realidade. Será? Obrigado, meu abraço; bom fim de semana!

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