ECOS DE UMA SAUDADE
Minha mãe nasceu em outubro de 1921.
E morreu em
janeiro de 2020, quando começávamos a fazer planos para o seu aniversário de
100 anos. Como viveu: tranquilamente, em paz, durante uma noite que deveria ser como todas as outras.
Embora pareça
mais duro, eu prefiro dizer "morreu". Recuso-me a usar o eufemismo "nos deixou".
Até porque, acredito que os entes amados não nos deixam; continuam sempre
conosco.
Gosto de pensar
que, ao menos enquanto meus filhos ainda estiverem aqui, ela não nos deixará; a
lembrança vive e mantém vivos os momentos que passamos juntos; valeram a pena.
Bons ou menos bons.
Ela me apoiou
sempre, nos tempos mais difíceis da minha vida. Conservadora convicta, foi
contra o meu divórcio; mas superou os limites e acabou adotando e amando a
mulher que escolhi para seguir comigo.
Não sei se ela
terminou o ginásio; naquele tempo, era comum as moças casarem cedo, e minha mãe
se casou aos 15 anos. Mas tinha alma de artista: tocava piano e escrevia como
poucos; bordava e pintava muito bem.
De todas as
telas que deixou, esta é a minha preferida e fiz questão de fotografá-la, para
ilustrar este post de saudade, apesar de já danificada pelos anos. Tenho uma
vaga lembrança de ter visto quando a pintava.
Foi dela que
recebi o gosto pela leitura, pela beleza e pelas artes. Ela me deu os livros de
Monteiro Lobato e lembro que, uma vez, me acordou às 3 da manhã, apenas para
mostrar como estava linda a lua cheia.
Dela, também,
acho que herdei a fascinação pela lua. Minha mãe era uma mulher forte e foi
determinante, não só para os quatro filhos que gerou; mantinha toda a família unida: os irmãos todos a procuravam.
Mesmo depois
que meus avós morreram, todos continuavam unidos em torno de Almira. Em sua
casa eram comemorados São João, Natal, Sexta-Feira Santa, Ano Novo,
aniversários... Enfim, todas as festas.
Lembro que, com
meus filhos já meio crescidos, eu os levava à casa dela, para soltar os fogos
de São João, quando ainda se fazia isso. E na Semana Santa levava o vinho
gelado, que bebíamos juntos, até os últimos anos.
Lembro dos
sábados à tarde, quando a visitava já acamada, depois de quebrar o fêmur em uma
queda, por volta dos 80 anos. Adorando guloseimas, ela sempre esteve acima do
peso; e, depois dessa queda, já não andava.
A mente,
entretanto, continuava lúcida e aguda; demos-lhe um caderno para colorir e ela
voltou a pintar; depois um caderno de desenho, e ela voltou a desenhar. No tablet, fazia palavras cruzadas e navegava na internet.
Com mais de 90
anos, esteve presente à exposição de seus quadros; e era de emocionar a alegria
que sentia. Se as mãos já não estavam tão firmes, a alma continuava jovem e
atenta, desfrutando de cada momento de vida.
Foi muito bom ter você, mãe; e ainda é. Tenho tanta saudade de você!
Das músicas preferidas dela. Cresci ouvindo.
FELIZ DIA DAS MÃES!



Tão lindo e emocionante relato sobre tua mãe! Como a tua, a minha também teve queda e quebrou fêmur,dali nunca mais andou... Triste! Mas o tempo que aqui viveu ,aproveitou! Linda tua homenagem! Belas memórias temos delas!
ResponderExcluirabração, tudo de bom,chica
Aproveitou, sim, Chica! Saboreou até a última gota de vida, dentro do que lhe foi possível; é outro exemplo dela que tento seguir. Felizes somos nós, que as tivemos! Meu abraço, obrigado; bom resto de semana.
ExcluirBoa tarde meu querido amigo Flávio. Também prefiro o eufemismo ou partiu. Minha querida mãe, chegou aos 83 anos e é uma grande mulher. Criou 4 filhos e ainda pegou uma de criação, que não lhe dá o divido valor. Como, não sou juiz. Deixo cada um deles, nas mãos de Deus. Só em ter a oportunidade, de cuidar da minha mãe, considero uma grande bênção. Conheço uma senhora, que se Deus quiser, 21 de junho fará 100 anos. será a primeira pessoa, Centenária, que terei a oportunidade de conhecer. Um Feliz Dia das Mães, um pouquinho atrasado para sua esposa e todas as outras mães, que fazem parte da sua família. Uma excelente tarde de segunda-feira e um grande abraço carioca. A idade chega para todos, sexta-feira, será a minha vez.
ResponderExcluirFelizes somo nós, amigo, que as temos por mais tempo; são dádivas inestimáveis! Grato pelos votos, meus parabéns à tua amiga que caminha para o centenário; bom resto de semana, meu abraço.
ExcluirAmigo Flávio, boa tarde de paz!
ResponderExcluirFeliz quem teve uma mãe para sentir saudade.
Um texto sentido.
Tenha dias abençoados!
Abraços fraternos
Com certeza, Rosélia! Elas não só nos dão a vida; também nos apresentam à vida! É a saudade mais doce que se pode sentir. Meu abraço, obrigado; bom resto de semana!
ExcluirAmigo, compreendo perfeitamente as tuas palavras tão sentidas, que me tocaram...
ResponderExcluirPorque eu sinto o mesmo, mas em relação a meu Pai.
Gostei de conhecer a canção.
Forte abraço, boa semana.
Minha mãe adorava música, São; tinha uma respeitável coleção daqueles 78 rpm, lembra deles? :) É muito bom termos essas lembranças, amiga; nos fazem melhores! Meu abraço, obrigado; bom resto de semana.
ExcluirBoa tarde Amigo Árabe,
ResponderExcluirQue homenagem tão linda a sua Mãe!
Foi uma Mãe muito especial dotada pela arte, pela leitura, pela beleza do céu à noite e partilhando com todo o carinho o belo que enxergava,!
Mas, acima de tudo o amor que dedicou aos seus filhos foi a sua maior virtude!
Uma Mãe que se perpetua nos filhos, nos netos, que ficará para sempre nas vossas memórias!
Adorei a tela pintada por sua Mãe. Era decerto um ser excecional!
Mãe é Mãe e nem sempre todas têm capacidade para se doar e há que respeitar !
Fiquei muito emocionada, Amigo, com este seu relato, todo ele amor e admiração pela Mãe.
Um grande beijinho e continuação de boa semana.
Emília
Confesso, Emília, que realmente a acho muito especial; sempre achei, e nunca comheci alguém como ela! Mas assim deve ser cada mãe, para seus filhos, não é? Obrigado, minha amiga; bom resto de semana, meu abraço!
ExcluirOlá, Flávio
ResponderExcluirLinda homenagem! A sua mãe era muito amorosa e talentosa, belo quadro ela pintou. A minha mãe também faleceu em abril de 2020, de COVID-19, aos 86 anos. Ela era muito alegre e sempre reunia a família em sua casa. A saudade é grande! Feliz Dia das Mães! Um forte abraço.
Saudade que não passa, não, é, amiga? Mas as lembranças delas nos confortam! Obrigado, meu abraço. Bom fim de semana.
ExcluirMeu querido amigo, sem dúvida, a tua homenagem a tua Mãe é lindíssima.
ResponderExcluirA minha Mãe partiu há muitos anos, onze meses depois do meu Pai, e não há um dia que eu não me lembre deles :(
A saudade não acaba, nós é que aprendemos a conviver com ela...
A minha Mãe iniciou a sua grande Viagem de mão dada comigo. Fez-me um ligeiro aceno com a mãozinha livre, e deu o seu último suspiro.
Lembro cada pormenor como se fosse hoje...
As Mães estão sempre conosco.
Aquele abraço, meu amigo.