ALGUÉM SE LEMBRA DO DIVA?


Ficar velho é fogo! Embora, confesso, a alternativa seja bem pior.

Acho que só as pessoas com mais de 60 anos vão entender esta crônica,. Mas estive lendo os meus velhos escritos e resolvi dar uma repaginada e publicá-la. Às vezes, ainda me julgo jovem e tenho estes ataques de nostalgia.    

No meu tempo” (detesto esta expressão, que equivale a um auto atestado de envelhecimento, mas às vezes é impossível fugir dela), as comadres e fofoqueiras desempenhavam importante papel na manutenção da ordem social.

Explico: à falta de melhores afazeres, as simpáticas velhinhas assumiam as funções de olhos, ouvidos e (principalmente) boca da comunidade local. Ficavam nos muros, ou por trás das janelas, olhando o que se passava na rua.

Analisavam o comprimento das roupas das jovens, viam quem saía com quem, a que horas voltavam e outras miudezas semelhantes, que só podem interessar mesmo a quem já tem a vida ganha e pode gastar tempo esmiuçando a alheia.

Sabe disto a hoje senhora que, quando adolescente, foi flagrada por uma dessas fiscais não nomeadas, conversando com algum rapaz em um canto um pouco mais escuro; ainda que fosse um papo inocente, quando a pobre jovem chegava em casa, era certo enfrentar um tribunal familiar. Isto, quando o pai ou a mãe não iam arrancá-la do local e escoltá-la para casa, entre recriminações e eventuais porradas.

As velhinhas eram respeitadas, e suas línguas temidas. Sentinelas vigilantes, evitaram a colheita precoce de incontáveis cabaços (ainda se usa esta palavra?) e foram responsáveis por muitos casamentos de véu e grinalda, embora em alguns deles fosse visível que o pai carrancudo não largava o braço do futuro genro, para evitar alguma fuga de última hora.

Não foram poucos, também, os rapazes que largaram o cigarro depois de uma homérica surra, causada pela delação anônima de uma incauta tragada; ou os que deixaram de beber, depois que uma boca murcha soprou aos ouvidos dos pais que os havia visto tomando uns goles, numa rodinha de “viciados”.

Pareciam ter olhos na nuca, aquelas velhotas que integravam o D.I.V.A. (Departamento de Investigação da Vida Alheia, alguém se lembra?). Como bem resumiu um amigo de então: “Tá tão deserto, que você pensa que pode arriar as calças e cagar na rua; mas basta um peido, que amanhã o bairro todo já sabe!”.

Para os adolescentes, as fofoqueiras eram um ameaçador pesadelo; para os pais, entretanto, grande aliadas. Tanto, que se cunhou uma expressão: “Bendita seja a maldita língua do povo”, para enaltecer as “catástrofes” evitadas por essa rede clandestina e voluntária de informações.

Eu mesmo, confesso, já tive que interromper bons amassos por causa da passagem de uma dessas senhoras. A garota corria para casa, desesperada para chegar antes da velha, e eu corria pro outro lado, antes que o pai dela chegasse. Ainda me lembro de algumas pombas que debandaram, antes de sentar no poleiro armado e ansioso.

Hoje, temos as câmeras dos smartphones e a internet; qualquer fofoca é gravada e se espalha com a maior rapidez. Vacilou, caiu na rede!  

E, confesso, tenho saudades da minha juventude, com as doces senhoras do D.I.V.A.

Vídeo

(às vezes, dá saudade;)

Comentários

  1. Los chismes siguen a pesar de los cambio de tiempo. Te mando un beso.

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    1. Verdade, JP. Acho que essa existe desde que o ser humano aprendeu a falar! ;) meuabraço, obrigado; boa semana.

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  2. Bah,Flávio! Quem não lembra delas? Mas sabes, creio ainda as vemos nos dias de hoje, como antes ou apenas fiscais de redes sociais,rs... abração, chica

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    1. Por aí, Chica: mudam as embalagens, continuam os mesmos produtos! ;) Meu abraço, obrigado; bom fim de semana!

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  3. Me ha encantado ese término de DIVA, para las ancianas que les gusta el cotilleo y que por aquí las denominamos, como "Cotorras"...Con lo bonito que es vivir y dejar vivir.
    En cuanto a las nuevas tecnologías estoy totalmente de acuerdo contigo, sobre todo con las redes sociales, donde todo el mundo creer saber de todo y de todos, y todo servido al momento, por lo que yo paso de las mismas, y me dedico a disfrutar de lo que me gusta y apetece, que la vida son dos días...
    Muchas gracias, Flávio, porque el tema que has expuesto da para muchas y diversas opiniones.
    Un abrazo.

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    1. Uma instituição mundial, não é, Manuel? Pelo que vejo, em Sevilha não é muito diferente! ;) Meu abraço, amigo, obrigado; boa semana.

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  4. Olá Flávio, ótimo texto... na verdade o tempo passa e as situações apenas mudam de roupa, mas a essência é sempre a mesma... abraços

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    1. Isso, Ana Lúcia... e as fofocas continuam! ;) Obrigado, meu abraço; bom fim de semana.

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  5. Desconhecia esta canção de Roberto Carlos.

    Ri imenso com a designação DIVA, e o Departamento ainda não desapareceu de todo.

    Gostei muito do jovem da foto.

    Amigo, abraço , tudo de bom.

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    1. Foi uma das primeiras dele, São; daí , é bem mais descontraída que a maioria! O DIVA mudou de endereço: agora, é ponto com. Quanto ao então jovem, ainda gosto muito dele... mas o vejo cada dia mais velho! :) Meu abraço, obrigado; bom fim de semana, amiga!

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  6. Boa tarde Flávio. Seu artigo é maravilhoso. Onde eu moro, nosso pequeno terreno é todo murado. Já tive uma vizinha curiosa, que abriu duas cartas minhas. Acho que Deus , deu uma vida para cada um de nós, para não termos tempo, de nos metermos ocupados na vida dos outros. Grande abraço do seu amigo carioca.

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    1. Também penso assim, Luiz; já tenho trabalho demais com a minha vida, não me sobra tempo pra alheia! ;) Meu abraço, obrigado; bom fim de semana, amigo.

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  7. Olhando você na piscina, me veio um pensamento que quase me mata de rir: parece que que o amigo passou no salão de beleza antes desse mergulho! O batom ficou tão perfeito que jurei que um esteticista tinha te visitado. Não tenho coragem de dizer essas coisas para o amigo, mas que pensei, pensei. (risos)

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    1. Piscina, né? Voce não deve ter notado as pedras. Quanto à foto, é rejuvenescida por IA; isso talvez exlique a impressão de batom. Agora, fiquei com uma leve impressão que o amigo faz parte do DIVA! ;) Meu abraço, mestre, obrigado; bom fim de semana.

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  8. Olá, Flávio
    A tua foto no mar ficou ótima! É bom demais dar uns mergulhos. É triste perder tempo com a vida dos outros e, quando cai na internet, é terrível. Um forte abraço.

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    1. Adoro praia, Lucinalva; praticamente toda a minha vida tem sido passada perto de algumas muito bonitas. Quanto à internet, é realmente terrível como amplifica as fofocas! Obrigado, meu abraço; bom fim de semana.

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  9. Boa tarde Amigo Flávio,
    Não conhecia a Sigla muito bem colocada para as fofoqueiras da época!
    Nos meios pequenos havia pessoas como essas e como era criança nunca fui vítima delas.
    Quando nos mudámos para os arredores da capital, em plena adolescência, não dava por elas. Meu caminho era entre a casa e a Escola onde estudava.
    Meu pai se encarregava de nos dar seus "sermões" e ai de quem transguedisse.
    Tenho saudades dele, apesar de ser um pouco exigente com suas três filhas..
    Gostei do seu texto e foto.
    Beijinhos e bom fim de semana.
    Emilia

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    1. Acredita, Emília: em Salvador, por ocasião da minha adolescência, elas existiam em todos os bairros... e cumpriam bem a sua função de influencers; só não eram assim chamadas, ainda. ;) Os nossos pais eram mais rígidos, sim; mas, graças a eles, somos como somos! Meu abraço, amiga; obrigado, bom fim de semana!

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