AQUELE CARA


Eu sou aquele cara.

O cara que você conhece um dia e, se encontrar no dia seguinte, não reconhece; o cara que se perde na multidão. Tenho um rosto comum, um corpo comum e um jeito comum; nada que fique gravado.

Sou a própria definição de mediano: nem alto nem baixo, nem gordo nem magro; não sou bonito nem feio o suficiente para ser lembrado. Nem rico nem pobre, nem intelectual nem totalmente ignorante.

Sou o cara que vive um dia após o outro; alguns nem tão bons, outros melhores. Sou como a Carolina do Chico, que vê o tempo passar na janela, curtindo a festa na praia, mas se sente em paz no quarto.

Nada contra ser assim, quero deixar registrado. A verdade é que tenho mais do que preciso, estou satisfeito com a vida; tenho mais razões para agradecer, do que para reclamar. Fiz mais do que pensei.

Tive os meus erros e os meus acertos; os primeiros me custaram e os outros me fizeram sentir realizado. Vivi os meus amores e as minhas desilusões; criei os meus filhos, que andam com suas pernas.

Perdi algumas boas oportunidades, mas nada me faltou até aqui. Tenho a meu lado a mulher mais bonita que já conheci e nela encontro o que desejo; aprendi a viver o amor, sem urgências ou dúvidas.

Tenho o que preciso, para viver sem muitas extravagâncias, e ainda me sobra um pouco para ajudar pessoas de quem gosto. Não sou chegado em pompas e luxos; porém, confesso, gosto de ter conforto.

Roí algumas beiras de sino; mas hoje sei que foi como era pra ser. Os momentos felizes me trouxeram forças para ir em frente, e os amargos me ensinaram valiosas lições; todos eles valeram a pena.

Felicidade e tristeza se alternaram em minha vida; como, de resto, na vida de todos os outros. Sorrisos iluminam o caminho e lágrimas aliviam a dor dos seus trechos escuros. Desse jeito, passa a vida.

Sou aquele cara que adora música, paz e beleza. Que cuida da própria vida e evita meter-se na vida alheia, por mais forte que seja a tentação; gosto de ajudar, quando posso, mas tento não atrapalhar.

Tenho preguiça de pegar a estrada, mas gosto de viajar. Conheci lugares que nunca imaginei, vi muitas belezas aqui e em outros países; mas acredito que nada é tão gostoso como voltar para casa.

Enfim, sou alguém como todos os outros; com pontos fortes e fracos, simpáticas e antipatias. Sou um cara que gosta de ler e escrevo para fazer a minha catarse; é mais barato e eficaz que ir ao psicanalista.

Não sei se sou feliz; mas estou em paz com a vida e o que ela me traz, como diz o Roberto Carlos. Procuro viver cada dia da melhor forma possível e aproveitar cada instante; sei que o último não está longe.

Pois é: esse cara sou eu.

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