CONTO DE NATAL
Época de Natal.
Estou só, na rua. E, como em outras
vezes, percebo melhor a solidão. É uma presença quase palpável; tão real, que
tenho a sensação da sua companhia. E me parece ouvir o eco dos seus passos,
junto aos meus, nas pedras da calçada.
Enfio a mão no bolso das calças; aperto
a nota de cem reais. É o meu único tesouro: tudo que me restou do salário,
depois de pagar as contas. Na casa pequenina, longe deste bairro da chamada
“classe média alta”, o café e o pão de ontem me esperam. O frango e o vinho já
estão comprados, mas cuidadosamente guardados na geladeira: são petiscos
especiais, para a noite de Natal. Não sei porque, uma parte de mim ainda
acredita nesta época como um tempo de magia.
Estou saindo do trabalho: o corpo
cansado, a mente divagando. Uma vaga nostalgia me invade: lembranças de outros
tempos, outras crenças, outras idéias. Memórias de uma esperança forte,
persistente; que me fazia acreditar nas pessoas, nos sentimentos, na sorte, em
um futuro melhor.
Na rua, há casas bonitas e edifícios
enormes; todos decorados com luzes coloridas, que piscam sem cessar. As luzes
me fazem lembrar os nossos sonhos, que brilham por um instante, iluminando a
vida, antes que volte a escuridão.
Até as árvores dos jardins estão
cobertas de lâmpadas. É um cenário quase irreal: como se as estrelas descessem
à terra, brilhando sobre o sonho do amor entre os homens, que um Nazareno
sonhou há dois mil anos.
De algum lugar, vem o som de “Noite
Feliz”: música suave, palavras lindas de amor e paz. Por um momento, quase acredito neste sonho.
Quase sem perceber, paro diante de um edifício muito alto, que se destaca entre
os outros.
O seu jardim parece um canteiro de
estrelas, e toda a sua fachada está coberta de luzes. Nas varandas, nas
janelas, brilham milhares de lâmpadas; como se quisessem anunciar ao mundo que
o amor ainda existe, que ainda podemos ser todos irmãos.
Há uma nota destoante, entretanto: no
topo do enorme prédio, existe uma área escura. Firmo os meus olhos de míope e
percebo, confusamente, que há o desenho de uma enorme estrela, sobre um grande
letreiro; mas as lâmpadas estão apagadas, enquanto todo o resto do edifício
resplandece de luzes e cores.
Vejo uma mulher magra, pequena e malvestida,
sentada no chão, junto à entrada da garagem do prédio, com uma criança no colo;
da distância em que me encontro, apenas uma pequena trouxa, que os seus braços
envolvem com carinho e tristeza.
Um carro pára em frente à garagem:
grande, bonito, reluzente. Enquanto o portão se abre, a mulher estende a mão,
num pedido de esmola: uma súplica humilde, talvez ainda mais dolorosa porque
resignada e muda. Mas o vidro da janela nem desce, e o carro entra na garagem.
Não sei porque, fico por ali. E vejo que
o porteiro do prédio se encaminha para a pedinte; chamado, certamente, pelo
motorista recém-chegado, ou por algum outro morador a quem incomodou a imagem
da miséria.
É um mulato alto e forte, o uniforme
cuidadosamente engomado, bigode e cabelos bem aparados. Percebo todos estes
detalhes quando atravesso a rua, aproximando-me da cena; ouço as suas palavras
rudes, enxotando a mulher, mandando-a procurar um albergue ou uma ponte.
Chego junto aos dois, e algo em meu
olhar faz com que ele se cale. Abaixo-me, seguro a mulher pelo cotovelo e, com
todo o carinho de que sou capaz, faço com que ela se levante. Conduzo-a para
atravessar a rua, com o andar vacilante que denuncia a fome e o cansaço.
Paramos, novamente, em frente ao prédio.
Olho o seu rosto desfeito, triste, macilento; percebo a mágoa e a descrença em
seus olhos. E, num impulso, tiro do bolso a nota de cem reais, que lhe entrego.
A surpresa e a alegria surgem em seu
olhar. Ela me entrega a criança, enquanto procura guardar a inesperada fortuna
num bolso do vestido rasgado. Seguro o pequenino, e o aperto contra meu peito.
Num impulso, olho para cima e vejo o topo do prédio, agora iluminado pela enorme estrela, completamente acesa, brilhando sobre o letreiro que diz apenas: “FELIZ NATAL”!
Esta história aconteceu durante o período financeiramente mais difícil de minha vida. De vez em quando a republico, para não esquecer o verdadeiro significado do Natal.
FELIZ NATAL, AMIGOS!



Esse conto não cansdamos de ler! Muito lindo e repensar o verdadeiro sentido do Natal vale sempre e muito!
ResponderExcluirDesejo pa ti e teus um Natal lindo e que a magia dele perdure nos corações por todo novo ano! abração, chica
Grato, Chica! Que o teu Natal tenha sido maravilhoso e o Ano Novo traga a realização de teus sonhos, amiga, junto aos que te são queridos! Meu abraço, boa semana!
Excluiruno siempre debe dar y es más noble cuando das de lo que uno no tiene. Te mando un beso y te deseo una feliz navidad para ti y tu familia.
ResponderExcluirObrigado, JP! Espero que o teu Natal tenha sido ótimo, e o Ano Novo venha melhor ainda! Meu abraço, obrigado; bom fim de semana.
ExcluirGracias, Flávio, por este hermoso cuento, que está muy bien traído para estas fechas navideñas. Y créeme que estoy en contra de estas iluminaciones que se instalan de forma desmesurada y que se está poniendo de moda en muchas ciudades de todo el mundo. Y digo esto porque pienso que buena parte de ese dinero que se invierte en luces, bien se podían invertir en personas como la que cuentas y que llegan a estas fiestas sin tener alimentos que llevarse a la boca, pero esto no solo se debe de hacer en Navidad, sino durante todo el año, y entonces, el mundo iría mejor.
ResponderExcluirOs deseo a ti y a los tuyos que disfrutéis de una feliz Navidad.
Un abrazo, amigo.
Continuo acreditando, Manuel, que a verdadeira luz vem de dentro de nós; o mundo seria, sim, bem melhor! Desejo que o teu Natal tenha sido feliz, amigo, e assim também seja o teu Ano Novo! Meu abraço, obrigado, bom fim de semana.
ExcluirBravíssimo querido amigo Flavio!
ResponderExcluirLindo de ler e dificil de
comentar.
Que seus dias festivos
sejam perfeitos.
Bjins e Abraço
CatiahôAlc.
de Cecília Meireles – “Natal”
“De repente, do céu desce uma estrela,
e o mundo inteiro se ilumina.
Nasce o menino que é pura esperança,
e a terra canta sua alegria divina.”
Grato, Catiaho. Acredito que o seu Natal foi muito bom, amiga, e desejo que o Ano Novo venha realizar os seus sonhos! Meu abraço, bom fim de semana.
ExcluirBoa tarde, Flávio
ResponderExcluirLinda história de compaixão pelo próximo. Jesus vive e reina eternamente, Ele se fez um de nós e deixou um exemplo maravilhoso de amor, que possamos sempre aprender com Ele. Desejo um Feliz Natal e um 2026 abençoado por Deus, um forte abraço.
Bem assim, Lucinalva: que aprendamos sempre com Ele, para fazermos um mundo melhor! Que o teu Natal tenha sido ótimo, e o Ano Novo te traga novas alegrias! Meu abraço, obrigado; bom fim de semana.
ExcluirAmigo Flávio, boa noite de paz!
ResponderExcluirO Aniversariante ficou feliz com seu gesto de imensa ternura para com os mais necessitados sobretudo quando não tinha tantos recursos... foi melhor ainda a dádiva.
Um texto muito emocionante que revela o verdadeiro espírito natalino.
Tenha um tríduo de Natal abençoado!
Abraços fraternos e festivos
Grato, Rosélia; espero que o seu Natal tenha sido muito feliz, e ainda mais feliz seja o Ano Novo! Meu abraço, obrigado; bom fim de semana.
ExcluirBoa tarde meu querido amigo Flávio. Obrigado pelo texto maravilhoso e dividir conosco, uma parte marcante da sua vida. Desejo um Feliz Natal com muita paz e saúde, para você e todos os seus familiares.
ResponderExcluirFoi um período difícil, Luiz; mas é nesses momentos, que mais aprendemos! Retribuo os votos de Feliz Natal e desejo que o Ano Novo lhe traga muitas alegrias, junto aos seus! Meu abraço, obrigado; bom fim de semana.
ExcluirOi Flávio, que bonito texto...
ResponderExcluirQue pena que alguns significados só existem nestas datas não é
verdade? Como tu fostes leitor de Khalil Gibran tenho
certeza que para ti os significados verdadeiros são todos os dias como
a vida que segue.
Então... Obrigada por o tempo que passamos juntos neste
Ano, "Somos a resistência dos blogs", k.
Quando te programares para vir ao Sul novamente tu e tua esposa se quiserem me avisem, a casinha é simples, mas um cafezinho sempre tem, k.
Um bom Natal e uma Boa entrada de Ano para ti e para os teus.
Boa noite Amigo Flávio,
ResponderExcluirQue conto lindo e emocionante!
Infelizmente o mundo está cada vez mais cheio de pessoas estendendo a mão à caridade e tantas vezes enxotadas dos sítios chiques, por gente sem nenhuma moral.
O gesto da pessoa que observou a pobre mulher e a criança que tinha ao colo, e se aproximou oferecendo-lhe o dinheiro que lhe restava, originando que a estrela brilhasse , foi um verdadeiro ato de amor, foi o Natal que Jesus desejou que celebrássemos todos os dias.
Gostei muito. Parabéns por ter criado esta história com tanto significado.
Desejo-lhe e a toda a sua Família santo e Feliz Natal!
Beijinhos,
Emília
Bem hajas, meu Amigo!
ResponderExcluirEstreito abraço, feliz Natal!
Bem hajas, minha amiga; que o teu Natal tenha sido maravilhoso e o Ano Novo te traga muitas alegrias! Meu abraço, obrigado; bom fim de semana.
ExcluirPassando para deixar os meus votos de boas festas!
ResponderExcluirBjxxx,
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Grato, Isy! Que tenha sido ótimo o teu Natal, e o Ano Novo seja ainda melhor! Meu abraço, bom fim de semana.
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